Open-access Crises financeiras e a sabotagem do processo de produção: uma perspectiva Vebleniana

Financial Crises and the Sabotage of the Production process: A Veblenian Perspective

Resumo

Este estudo explora as contribuições de Veblen sobre os fatores endógenos nas instituições e nos hábitos de gestão financeira que influenciam crises e limitam o crescimento econômico. Veblen destaca a prevalência de práticas de gerenciamento que priorizam a maximização financeira em detrimento da eficiência produtiva, promovendo a "sabotagem" industrial. As desigualdades econômicas e sociais, aliadas à ociosidade produtiva, são essenciais para sustentar o sistema capitalista. A mentalidade predatória que regula essa dinâmica também afeta as instituições políticas, intensificando a concentração de poder e a instabilidade. Como resultado, a tentativa de restauração da ordem financeira, após crises, aprofunda a sabotagem industrial e a concentração de poder. A análise de Veblen alinha-se aos pós-keynesianos, como Minsky e avança ao incorporar aspectos políticos na compreensão das crises financeiras.

Palavras-chave:
institucionalismo; crises financeiras; instabilidade; crescimento econômico; fusões e aquisições

Abstract

This work explores Veblen's contributions regarding the endogenous factors within institutions and financial management practices that influence crises and constrain economic growth. Veblen emphasizes the prevalence of management practices that prioritize financial maximization over productive efficiency, promoting industrial "sabotage." Economic and social inequalities, along with productive idleness, are essential to sustaining the capitalist system. The predatory mindset governing this dynamic also affects political institutions, intensifying power concentration and instability. As a result, attempts to restore financial order after crises deepen industrial sabotage and power concentration. Veblen's analysis aligns with post-Keynesians, such as Minsky, and advances by incorporating political aspects into the understanding of financial crises.

Keywords:
institutionalism; financial crises; instability; economic growth; mergers and acquisitions

1 Introdução

Várias são as características que tornam os escritos de Veblen um arcabouço singular e provocador. Em um dos seus primeiros trabalhos de destaque, no artigo intitulado Why Is Economics Not an Evolutionary Science, de 1898, o autor deixou evidente o seu repúdio à mentalidade reducionista dos economistas neoclássicos que, inspirados na mecânica newtoniana, tinham o fetiche pela procura do equilíbrio e do uso da matemática como método dominante para a abstração dos fenômenos econômicos. Visando revolucionar o campo das ciências econômicas na virada do século XIX para o século XX, Veblen tentou desenvolver uma análise evolucionária, fazendo uso de princípios provenientes na biologia, antropologia e psicologia.

No geral, Veblen era claramente contra os princípios filosóficos provenientes das abordagens marginalistas e dos economistas clássicos, os quais analisavam a produção e a distribuição a partir de uma visão essencialmente economicista, negligenciando fatores sociais, políticos e psicológicos. As críticas ásperas e o sarcasmo na análise do sistema de dominação capitalista, a partir de sua Teoria da classe ociosa, deram destaque às suas ideias no vasto conjunto de autores da história do pensamento econômico.

Outra marca principal da abordagem institucionalista de Veblen é a existência de um irrepreensível antagonismo entre duas inclinações radicalmente opostas na mente humana: o instinto predatório, responsável pelos hábitos dos negócios, contra o instinto para o trabalho eficaz, que comandava os hábitos produtivos.1 É a partir desse conflito psicológico, e que se materializa nos hábitos e instituições sociais, que o autor analisou os mais diversos fenômenos sociais e econômicos da espécie humana, desde os seus primórdios até o capitalismo. Entre os temas de maior destaque se encontram o surgimento da propriedade privada, o machismo e a submissão da mulher, a dominação dos trabalhadores pelos capitalistas, o estilo de vida da classe ociosa, a inovação tecnológica, entre outros.

É por esse prisma que o autor institucionalista também analisa a essência do capital, a restrição da produção e as crises financeiras. Em seu livro de 1904, The Theory of Business Enterprise, Veblen focalizou sua atenção para o ator mais influente da América: o homem de negócios. Enquanto os economistas neoclássicos viam no grande empreendedor um gerador de progresso econômico, Veblen tinha a percepção de se tratar, na verdade, de um o "predador" personificado. Isso porque, para o grande empresário2 capturar níveis diferenciais de renda - os quais eram a fonte do poder no sistema capitalista -, era preciso restringir conscientemente a produção, de modo que a eficiência financeira era conseguida à custa da eficiência material, independentemente do setor. Ou seja, o autor entendia que o comportamento predador nada criava, nada produzia e nada permitia sem que antes se pudesse obter lucros.

Diante disso, este estudo tem como objetivo analisar como Veblen compreendeu a natureza do capital, a restrição da produção e as crises financeiras a partir da dominância da inclinação predatória, em especial a partir da lógica dos hábitos dos negócios, na mente dos agentes econômicos. Para isso, o artigo se divide em seis seções, incluindo esta introdução. A segunda seção analisa a abordagem base de Veblen sobre o conflito entre o instinto predatório e o do trabalho eficaz. Em seguida, na terceira seção, é apresentada a visão de Veblen sobre a natureza do capital e sua diferença em relação às abordagens dos economistas clássicos. Na quarta parte, o texto aborda a discussão acerca da natureza do capital e do processo de acumulação derivado da dicotomia presente na teoria dos instintos, a qual terá como base a linha de pesquisa de Jonathan Nitzan e sua abordagem do Capital as Power. Na quinta seção, procede-se à análise das implicações da referida abordagem na explicação da restrição do processo produtivo e das crises financeiras. Na sexta parte, analisa-se como as contribuições de Veblen convergem com os pós-keynesianos, em especial a teoria de Minsky, e permite avançar para análises adicionais sobre a instabilidade do capitalismo. Por fim, conclui-se o estudo.

2 A inclinação predatória na análise vebleniana do capitalismo

Um dos pontos mais marcante da abordagem teórica de Veblen é sobre a existência de uma dicotomia entre instinto para o trabalho eficaz e predatório. Antes de avançar sobre esta questão, é importante ter em mente que nos escritos do autor verifica-se profunda importância dada à categoria dos instintos, sendo esses componentes fundamentais da natureza humana, junto com os hábitos mentais enraizados socialmente. Diferentemente dos economistas neoclássicos, que formulam suas teorias partindo de uma natureza humana dada, passiva, imutável e de racionalidade hedonista, a abordagem institucionalista vebleniana compreende que os hábitos mentais, que estabelecem a intencionalidade, o comportamento e o discernimento, devem ser analisados a partir de processos de causação.3

Em termos gerais, os instintos, na abordagem vebleniana, são mais do que meras pulsões reflexivas, envolvendo também consciência e desencadeamento de reflexão para tomadas de decisões de níveis de complexidade mais altas. Nesse caso, a característica fundamental de um instinto é a sua capacidade de propor uma finalidade, de modo que a ação instintiva é uma categoria teleológica:

These various native proclivities that are so classed together as “instincts” have the characteristic in common that they all and several, more or less imperatively, propose an objective end of endeavour. On the other hand what distinguishes one instinct from another is that each sets up a characteristic purpose, aim, or object to be attained, different from the objective end of any other instinct. Instinctive action is teleological, consciously so, and the teleological scope and aim of each instinctive propensity differs characteristically from all the rest. The several instincts are teleological categories, and are, in colloquial usage, distinguished and classed on the ground of their teleological content. (Veblen, 1914, p. 4).

Há vários princípios que cercam a relação entre instintos e hábitos na teoria de Veblen (1914), mas o geral é que os primeiros fornecem os propósitos das ações dos agentes, tanto no âmbito individual quanto em sociedade, enquanto o segundo configura as formas de perseguir estes objetivos.4 O esquema envolvendo os instintos e hábitos na mente dos agentes começa com o momento no qual os fenômenos do ambiente - e neste inclui-se tanto a estrutura física quanto a institucional -afloram um conjunto de instintos, que determinam as finalidades desejadas pelos indivíduos.

Entretanto, apesar de a categoria dos instintos fornecer um conjunto específico de finalidades que cada indivíduo buscará realizar dentro do contexto social, a mesma atribuição de propósitos não é inferida por Veblen quanto à trajetória de desenvolvimento do sistema como um todo, que é incerta e não finalística. Ao contrário das perspectivas ortodoxas, que conecta o equilíbrio macroeconômico ao processo de maximização de lucros e utilidades dos agentes econômicos (indivíduos e empresas), ou seja, uma trajetória predeterminada, a teoria vebleniana aponta em direção a um processo evolucionário, com propriedades emergentes que vão surgindo a partir dos desencadeamentos do sistema econômico e social ao longo do tempo.

É a partir do componente dos instintos que Veblen (1898b; 1914) atribui a existência de múltiplas finalidades que ditam as ações econômicas dos agentes. Seu modelo teórico permite que cada objetivo seja explicado a partir de relações de causa e efeito, de modo que cada instinto seja aflorado levando em conta a interação dos seres humanos com o ambiente material e social onde se encontram. Com isso, o autor desenvolveu tipificações de instintos que dominaram a mente dos indivíduos em cada etapa do desenvolvimento cultural e, assim, ditaram a dinâmica social e econômica. Cada propensão humana tem uma causa e, consequentemente, um efeito sobre o conjunto de hábitos e instituições.

O processo de ajustamento institucional somente pode ser compreendido à luz das propensões humanas. São os instintos que desencadeiam os processos cognitivos responsáveis pela formação dos hábitos. Nas palavras do autor institucionalista, “Men take thought, but the human spirit, that is to say the racial endowment of instinctive proclivities, decide what they will take thought of, and how to what effect” (Veblen, 1914, p. 6). Os instintos são, portanto, a base para a configuração institucional, sendo a categoria responsável por estabelecer o sentido das instituições e as decisões de mudança ou manutenção dos hábitos mentais enraizados socialmente.

A primeira inclinação instintiva tratada pelo autor é a do instinto para o trabalho eficaz. Veblen via o homem como um ser ativo, que age sempre em busca de um propósito, de modo que essa característica se estabelece como uma propensão instintiva canalizada para a realização de algum fim concreto e objetivo (Veblen, 1898b). Tal propensão tem como finalidade a busca por eficiência no trabalho produtivo, aversão à futilidade e ações sem propósito. Conforme o autor, o instinto para o trabalho eficaz está presente em todos os agentes, sendo que a espécie humana somente pôde se adaptar e se desenvolver em seu meio ambiente por possuir essa propensão, a qual é considerada pelo autor "the more generic, more abiding trait of human nature" (Veblen, 1898b, p. 190).

Em termos gerais, o instinto para o trabalho eficaz está em conflito com o impulso responsável pela aversão ao trabalho servil. Este último é chamado por Veblen (1898b) de instinto para o esporte ou, como é comumente conhecido, instinto predatório. Tal propensão cria estímulos para atividades com o fim na valorização individual, cujo resultado é totalmente desnecessário perante o objetivo de manutenção das necessidades do grupo. Ou seja, está ligado às atividades que não têm relações com o processo produtivo, manifestando o desejo de demonstração de superioridade e, por vezes, de infringir dano, moral ou físico, aos adversários.

O instinto predatório tem certo destaque da análise de Thorstein Veblen sobre o comportamento humano dentro do capitalismo, especialmente em sua obra A teoria da classe ociosa (1899). Veblen argumenta que esse instinto tem raízes nas primeiras formas de organização social e econômica, particularmente nas sociedades tribais e guerreiras, onde a aquisição de bens e poder era frequentemente obtida por meio da força e da dominação. Na era capitalista, esse instinto não desaparece, mas se transforma e se manifesta de outras maneiras. Em vez de uma busca literal por saque e guerra, o instinto predatório é canalizado para a acumulação de riqueza e poder financeiro.

A inclinação predatória está intimamente ligada a um determinado hábito mental que, segundo as obras do autor, tem papel tão fundamental no comportamento social humano quanto o instinto para o trabalho eficaz. Esse é o hábito da emulação. É importante ter em mente que a emulação é um hábito-chave na teoria vebleniana,5 ganhando destaque em sua obra de 1899, A teoria da classe ociosa. Pode-se dizer que, na natureza humana, ela assume um nível de dominância e importância tão fundamental quanto o instinto para o trabalho eficaz: “With the exception of the instinct of self-preservation, the propensity for emulation is probably the strongest and most alert and persistent of the economic motives proper” (Veblen, 1899, p. 110). Cavalieri (2009, p. 361) sintetiza o conceito de emulação como a “atitude de um indivíduo de comparar-se com os demais desejando superá-los, sempre em algum aspecto que o faça ser coletivamente mais estimado, mais positivamente reconhecido em relação aos outros membros da comunidade”.

Veblen (1904; 1921) viu um irrepreensível conflito entre os propósitos apoiados no instinto predatório e o do trabalho eficaz, que apoiaria a dicotomia entre as necessidades industriais/produtivas da sociedade e a dos negócios corporativos. Aqui a lógica dos negócios difere dos hábitos que direcionam os métodos e objetivos industriais. A lógica financeira comercial significa investimento para o lucro, cujo processo é a compra e venda para a acumulação de riqueza pecuniária. Enquanto a indústria é exercida pelos impulsos do instinto para o trabalho eficaz, os negócios são uma questão de propriedade e poder. No caso, o primeiro exige integração, cooperação e planejamento em toda a sociedade, já o segundo gera conflito e antagonismo entre os proprietários e uma divisão entre os empresários, de um lado, e a população de consumidores/trabalhadores, de outro (Nitzan, 1998).

Vale destacar que a relação entre ambos os instintos - o predatório e o trabalho eficaz - é variável, a depender das circunstâncias e do período da análise. Enquanto em The Engineers and the Price System (1921) há um conflito entre os propósitos ligados aos dois instintos, em The Theory of the Business Enterprise (1904) a relação é de complementariedade. Nesse trabalho de 1904, é a dominância do instinto de trabalho eficaz entre as classes industriais que sustenta os hábitos de ócio e consumo conspícuo - que nada mais são do que a expressão do instinto predatório - desse grupo.

Inclusive, em um dos primeiros trabalhos sobre as propensões instintivas que direcionam o comportamento econômico dos indivíduos, Veblen (1898b) afirma que o instinto predatório surge a partir do sucesso evolutivo da humanidade conquistado com os esforços obtidos pelas ações do instinto para o trabalho eficaz. Sendo assim, podemos afirmar que a abordagem vebleniana estabelece uma via de mão dupla para interação entre as diferentes classes de instintos, de modo que ora se configura uma relação de harmonia, ora de conflito. Quanto ao primeiro caminho, tem-se que os avanços materiais, tecnológicos, da produtividade e da utilização da capacidade industrial, que originalmente respondem aos imperativos do instinto para o trabalho eficaz, ocorrem quando há a permissão das finanças, cujas estratégias são apoiadas nos objetivos estabelecidos pelo instinto predatório. Por outro lado, a sabotagem industrial, que remete à restrição da produção e de todos os avanços industriais derivados do trabalho eficaz, é constantemente aplicada quando coloca em risco os objetivos de acumulação e emulação das classes dominantes e orientadas pelo instinto predatório.

Dentro desse esquema teórico, o avanço da dominância do instinto predatório sobre o instinto para o trabalho eficaz ocorre a partir do sucesso das ações deste último. Para Veblen (1898b), a aversão ao trabalho, como guia predominante das ações humanas, é possível apenas sob o modo de vida predatório, e este, por sua vez, só é possível a partir do momento em que o uso de ferramentas tenha se desenvolvido o suficiente para que um considerável excedente da produção, além do que é necessário para a manutenção da vida da sociedade, possa ser extraído.

Entretanto, a ascensão das motivações predatória dentro de um contexto de abundância material atua como força repressora do próprio avanço da produção. Isso ocorre porque, em um sistema dominado pelo impulso predatório, a emulação é feita com base na ostentação de riqueza e diferencial de acumulação, e não na produtividade geral. Isso fica evidente na explicação do autor para o avanço das instituições de cunho predatório que passaram a inibir a velocidade das inovações tecnológicas, cujo movimento havia como base as instituições ligadas ao instinto para o trabalho eficaz. “Innovation, the utilisation of newly acquired technological insight, is greatly hindered by such institutional requirements that are enforced by other impulses than the sense of workmanship” (Veblen, 1914, p. 41-42).

No capitalismo, a classificação de um homem de negócios dentro da comunidade é feita a partir da sua riqueza pecuniária, ou seja, do quanto de dinheiro pode ser acumulado de suas propriedades materiais. Esse hábito social se distingue do que vigorava nos estágios mais primitivos de desenvolvimento econômico, quando a reputação dos indivíduos era avaliada a partir da servicibilidade e produtividade, medidos em termos materiais, do trabalho e do capital possuído (Veblen, 1898b; 1904; 1914).

A dominância predatória ganha força a partir da metade do século XIX, quando cresce a atenção para o gerenciamento dos negócios como resultado do aumento da complexidade e da impessoalidade da produção, dando origem à figura dos homens de negócios, tipificado pelo financiador corporativo (Edgell, 2015). Com isso, a motivação por trás do processo produtivo mudou, no sentido do abandono do senso do trabalho eficaz, que se aflorava com a identificação do trabalho servil, e indo em direção para a predação pecuniária, na qual o acúmulo de lucros se tornava a maneira mais atraente para o exercício da emulação. A crescente dominação das instituições financeiras sobre as de cunho industriais levou o instinto do trabalho eficaz a ser contaminado pelos ideais de autoengrandecimento da emulação pecuniária, de modo que “even the serviceability of any given action or policy for the common good comes to be rated in terms of the pecuniary gain” (Veblen, 1914, p. 217).

Uma vez que o objetivo de acúmulo de riqueza passa a dominar a mente dos agentes econômicos, em detrimento da serventia derivada da entrega de utilidades materiais, ocorre de a classe de gerentes financeiros “sabotarem” a produção. Essa prática limita o uso da capacidade industrial para que não exceda a demanda de mercado, permitindo manter os lucros no nível requerido para a emulação pecuniária, enquanto a oferta e o nível de emprego se estabelecem em patamares aquém do desejado pela sociedade (Veblen, 1904; 1921). Dessa forma, o desemprego crônico é uma condição normal para Veblen, na qual a inclinação predatória impulsiona as firmas a produzirem abaixo da plena capacidade, com o intuito de restringir o mercado e, portanto, obter lucros superiores.

Veblen (1921) avalia que as instituições pecuniárias limitam a eficiência produtiva e, consequentemente, o bem-estar material da sociedade. Considerando que o aumento eficiente da capacidade industrial se deve ao constante avanço da tecnologia, ao aumento dos recursos naturais disponíveis e ao aumento contínuo da população, ocorre que a comunidade empresarial “have always been in a position to hinder this growth, and it is only by their consent and advice that things have been enabled to go forward so far as they have gone” (Veblen, 1921, p. 21).

Tendo estabelecido a dinâmica econômica vebleniana como resultado da dicotomia entre hábitos derivados de motivações predatórias e instinto para o trabalho eficaz, é necessário partir para a sua análise da natureza do capital. Entender a forma como Veblen via o capital é fundamental para explicar, por seu turno, os mecanismos pelos quais os capitalistas, e sua mentalidade predatória, exercem sua dominação sobre o corpo de conhecimento técnico - orientado pelo instinto para o trabalho eficaz e disseminado na sociedade - e como são habilitados para configurarem a produção em um nível aquém de sua eficiência potencial.

3 Capital e acumulação em Veblen

No esquema vebleniano o sistema produtivo na economia capitalista seria direcionado pelos interesses pecuniários dos homens de negócios. O objetivo pecuniário atrelado à atividade industrial tem como implicação principal relegar para uma posição secundária a busca pela eficiência, aumento da produtividade e o aprimoramento do sistema como um todo. Consequentemente, isso faria com que as empresas se guiassem por uma conduta essencialmente especulativa, na qual o esforço de modernização e ganhos de produtividade seria restringido pelo receio de insuficiência de mercado para dar vazão às novas vendas.

Em The Engineers and the Price System (1921), Veblen enfatiza o termo “sabotagem” para qualificar as técnicas de gerenciamento que visam restringir conscientemente a produção para maximizar a remuneração do capital. O objetivo é o ajustamento do volume de produto à capacidade do mercado, “not to the working capacity of the available resources, equipment and manpower, nor to the community's need of consumable goods” (Veblen, 1921, p. 1-9).

Esse ponto, em certa medida, vai ao encontro das visões keynesianas de demanda efetiva e seus impactos na escolha da produção e do investimento. Entretanto, para Veblen, mais do que a expectativa de demanda, é o poder de restringir o mercado que importa aos capitalistas que se encontram no topo do sistema.

Para Veblen (1904), a acumulação de capital não é mera questão de acumulação de riqueza, mas sim a de acumulação de poder. O capital físico permite ao seu proprietário não apenas a acumulação de riqueza, mas, principalmente, estender o seu poder sobre o conhecimento e o controle sobre a sociedade. Qualquer comunidade possui um corpo de conhecimento tecnológico, um estado das artes industriais que o autor chama de “equipamento imaterial”, e pode ser transmitido e aumentado apenas na sociedade. Com isso, os ativos tangíveis só podem se tornar produtivos se forem articulados juntos ao “equipamento imaterial” da comunidade (Gagnon, 2007).

Do ponto de vista vebleniano, a acumulação é um processo de poder, não material. Definido em termos diferenciais, envolve o crescente poder relativo das principais preocupações de negócios da economia, o que, por sua vez, ajuda a sustentar ou expandir a participação da renda do capital na renda geral. Para Nitzan (1998, p. 188), a distribuição da renda do capital entre os capitalistas está relacionada ao “balance of business damage they inflict on each other”, de modo que, no nível agregado, a parcela geral dos lucros da economia na renda nacional depende do “industrial damage arising from their business warfare”.

Considerando a busca pelo poder como objetivo último da acumulação de capital, e que isso ocorre apenas à medida que a propriedade permite a dominação do conhecimento técnico da sociedade, tem-se que o capital, junto com sua renda derivada, é mensurado em termos relativos e não absolutos. Assim, o proprietário dos meios físicos de produção terá como objetivo não a maximização dos lucros atuais, mas sim um rendimento que supere a média dos retornos auferidos pelos demais capitalistas e grupos da comunidade, e o seu crescimento futuro (Nitzan, 1998).

O capital, dessa forma, mensura o valor presente das possibilidades de ganhos futuros, e isso depende não da produtividade da indústria, mas sim da habilidade do proprietário do capital em limitar estrategicamente a produtividade da indústria para seu próprio interesse (Nitzan, 1998). Veblen compreendia que a posse do capital dava ao capitalista o direito de impor o desemprego e a restrição à produção: “Ownership of industrial equipment and natural resources confers such a right legally to enforce unemployment, and so to make the community’s workmanship useless to that extent. This is the Natural Right of Investment” (Veblen, 1923, p. 66).

Pode-se afirmar que, em vez de maximizar os lucros, o objetivo do capitalista é o de maximizar o valor do capital. Em The Theory of the Business Enterprise, Veblen (1904, p. 65) conceitua o capital como “capitalized presumptive earning capacity”, cuja composição é derivada de toda a extensão de crédito que a combinação entre os ativos materiais (máquinas e equipamentos) e imateriais (conhecimento técnico, patentes, marcas e outras propriedades específicas de cada empresa) pode conceber.

De acordo com Nitzan (1998), as teorias existentes da economia política, tanto liberais quanto marxistas, veem o capital como uma entidade dupla. Para essas abordagens, a essência “real” do capital consiste em mercadorias materiais/produtivas, enquanto a aparência “financeira” do capital se estabelece como uma realidade subjacente, distorcida ou precisamente espelhada. Já Veblen (1904, p. 262) rejeita essa dualidade, argumentando que o capital, no sistema capitalista, representa apenas o aspecto das finanças.

(...) business men keep account of their wealth, their outgo and their income, in terms of money value, not in terms of mechanical serviceability or of consumptive effect. Business traffic and business outcome are standardized in terms of the money unit, while the industrial process and its output are standardized in terms of physical measurements (mechanical efficiency). In the current habits and conventions of the business community, the unit of money is accepted and dealt with as a standard measure.

Ou seja, é a partir das finanças que se mede o quanto produzir e qual preço cobrar, e o valor do capital é fundamentalmente correspondente à capacidade de auferir ganhos financeiros ao longo do tempo. Dessa forma, em sua encarnação moderna, o capital existe como capitalização prospectiva, um ritual financeiro universal que desconta os ganhos futuros esperados a um valor presente singular: “The universality of this reduction makes capitalization the most supple power instrument ever known to humanity” (Bichler; Nitzan, 2010, p. 1). A capitalização cristaliza o poder dos capitalistas de moldar seu mundo, bem como a resistência daqueles que se opõem a esse poder. Mede o sucesso dos capitalistas em direcionar a produção e o consumo, moldar a ideologia e a cultura, afetar a lei, as políticas públicas, os conflitos, as guerras e até o meio ambiente.

Diante da dominância da instituição dos negócios, a acumulação capitalista somente é possível a partir do controle constante da oferta, no sentido de evitar que a produção ultrapasse a capacidade de vendas a um preço mínimo requerido para auferir ganhos diferenciais. A manutenção desse processo, que Veblen chama de sabotagem, somente ocorrerá se verificadas duas precondições fundamentais para o controle das finanças sobre a indústria, que são a concentração da propriedade e o apoio do mecanismo de capitalização.

Quanto mais concentrada se encontra a renda do capital, maior é a capacidade dos capitalistas dominantes de exercerem seu poder sobre a restrição da produção de uma sociedade. A noção de que a produção é restrita pela capacidade das empresas de estabelecer preços lucrativos implica que essas empresas possuem certo poder monopolista. Porém, na abordagem de Veblen (1904), a sabotagem também está presente em mercados competitivos. Do ponto de vista dos neoclássicos, a quantidade de oferta desejada pelo mercado é aquela em que há a interseção entre as receitas e os custos marginais. Ou seja, a quantidade de produção é determinada pelos imperativos dos ganhos financeiros máximos e não pela capacidade máxima de produção. Nesse caso, em uma interpretação vebleniana, o simples desgosto em produzir para ganhar uma taxa abaixo daquela que maximiza o lucro é a manifestação da sabotagem industrial. Com isso, embora as empresas de um mercado perfeitamente competitivo não determinem preços, suas atividades produtivas são limitadas pela própria busca do maior ganho financeiro possível.

4 Sabotagem e a sustentação do processo de acumulação

Sendo o poder do capitalista decorrente da renda do capital como um todo, tem-se que seus interesses estão apoiados sobre os ganhos auferidos no mercado de capitais. Esse processo de capitalização do capital é baseado na indução das expectativas do mercado sobre a capacidade de ganho futuro da indústria. Com isso, os gerentes corporativos têm de garantir que a avaliação dos ganhos presumidos de uma companhia, por parte dos agentes do mercado de capitais, seja a mais alta possível (Ganley, 2004).

Os processos de fusões e aquisições vão no sentido de controlar as expectativas do mercado de capitais. Para Veblen (1904), raramente as sinergias resultantes de fusões e aquisições entregam um aumento da capacidade e/ou eficiência por parte das corporações resultantes. Entretanto, esse mecanismo permite elevar o poder sobre o controle dos preços e quantidades ofertadas no mercado, como também o domínio acerca do conhecimento técnico da sociedade no setor. Nas palavras do autor ,“The differential advantages possessed by business concerns as competitors disappear when the competitors are merged, in the degree in which they cease to compete with rival bidders for the same range of business” (Veblen, 1904, p. 141).

Na visão de Veblen (1904), o interesse da administração raramente coincide com os da comunidade. O interesse da comunidade é atrelado à eficiência do processo produtivo, enquanto o interesse comercial dos gerentes financeiros se refere à manipulação do preço das ações da empresa (Ganley, 2004). Uma empresa certamente buscará incorporar novos métodos ou produtos, mas apenas à medida que estes conferem uma vantagem diferencial adequada, sendo condicionados pelos seus efeitos potenciais no lucro e na capitalização existentes (Nitzan, 1998). Para o autor institucionalista, isso se deve aos impactos desproporcionais do avanço tecnológico, aumentando mais rápido a capacidade produtiva em relação aos ganhos pecuniários potenciais, uma vez que se supõe que o aumento da demanda não cresceria na mesma velocidade que a oferta adicional (Wray, 2007).

A coalizão dos negócios, voltada para os objetivos da sabotagem, permitirá que o avanço das técnicas produtivas ocorra sem arriscar o controle da produção para fins pecuniários. Para Veblen (1904, p. 267), “in the case of ideal success, [business coalition] is to neutralize the cheapening of goods and services effected by current industrial progress”. Ou seja, as melhorias de produtividade, em um contexto de perfeita aplicação dos processos da sabotagem, avançarão apenas à medida que contribuírem para o objetivo primário dos negócios, que é o incremento das margens de lucro. O esforço é o de abaixar os custos de fabricação dos bens de consumo e de produção e evitar, o máximo possível, seus repasses para os preços de venda.

As condições que garantem a sustentabilidade do processo de acumulação capitalista na teoria de Veblen implica um nível de atividade econômica que raramente esteja em uma situação de pleno emprego. A natureza do processo de acumulação, orientada pela questão do poder, requer a presença de uma taxa de acumulação “diferencial” constante, ou crescente, pelo grupo de capitalistas dominantes. Isso implica uma participação crescente da renda do capital no produto agregado da sociedade, o que impede o uso total dos fatores de produção, em especial, o trabalho.

Ademais, é a essência social do capital que faz a acumulação possível no esquema vebleniano. A capitalização se baseia não apenas na produtividade do conjunto material de posse do capitalista, mas em qualquer poder institucional e estrutural que confere controle sobre a comunidade para aumentar ganhos diferenciais na esfera da distribuição. Ou seja, “not only are productive assets capitalized, but any institutional reality is capitalized as well, be it social, legal, political, cultural, psychological, religious, technical, or anything else that can grant an earning capacity” (Gagnon, 2007, p. 596).

Para Veblen (1921, p. 20) os interesses comerciais exigem uma política nacional agressiva, dirigida pelos capitalistas.

The great standing illustration of sabotage administered by the government is the protective tariff, of course. It protects certain special in-terests by obstructing competition from beyond the frontier. This is the main use of a national boundary. The effect of the tariff is to keep the supply of goods down and thereby keep the price up, and so to bring reasonably satisfactory dividends to those special interests which deal in the protected articles of trade, at the cost of the underlying community.

O autor também citou os impactos do patriotismo e da obediência aos costumes tradicionais, fortalecidos nos períodos de guerra, como mecanismos de geração de ordem para os negócios (Veblen, 1904). Isso facilitava a adoção de políticas comerciais pelo Estado, cuja proteção contribuía para a sabotagem e a acumulação diferencial por parte dos proprietários absenteístas.

Assim, Veblen avança ao expandir o conceito de capital para além da esfera econômica. Para o autor, o capital mobiliza todas as esferas sociais para obter ganhos diferenciais, sendo uma prática pecuniária que interfere em toda a realidade da comunidade. Ao definir o capital como capacidade de ganho putativo capitalizado sem referência à produtividade, a abordagem vebleniana pode integrar qualquer forma institucional de poder na economia. Por conseguinte, a dinâmica real do capitalismo somente pode ser explicada tendo o foco no poder e a busca pelo controle sobre a comunidade.

5 Sabotagem e crises industriais: a dominância dos negócios sobre a indústria

A abordagem vebleniana nos traz importantes considerações sobre o nível de produção das economias capitalistas, tanto para a análise do crescimento econômico, em especial suas restrições, quanto para as crises financeiras. A começar pela questão do crescimento, a visão convencional é de que os negócios estão sempre em melhor situação em cenários de crescimento. Ou seja, acredita-se que o aumento da utilização da capacidade e sua rápida expansão aceleram a expansão dos lucros. Entretanto, para Veblen (1904; 1923), os negócios não toleram nem a utilização máxima da capacidade nem a sua aceleração, pelo motivo de que isso pode colapsar os lucros.6 De um lado, os lucros são inconcebíveis sem produção, mas também são impossíveis sem sua devida restrição. Para que os lucros existam, as empresas precisam não apenas controlar a direção da atividade industrial, mas também restringir seu ritmo abaixo de seu potencial.

A plena utilização da capacidade implica riscos para o controle da produção e, consequentemente, dificuldades para a manutenção dos preços e lucros diferenciais. Primeiramente, uma elevação da demanda criaria ameaças potenciais sobre as barreiras à entrada de novos competidores, o que, provavelmente, se traduziria em quedas, ou restrições de incrementos, dos preços de vendas e das margens de lucro para evitar perdas de participação no mercado. Por sua vez, o acirramento da competição, ou o aumento da utilização da capacidade instalada da economia, significaria elevação dos custos, derivada do aumento da demanda de trabalhadores e de bens de produção.

Conceitualmente, pode-se estabelecer a existência de uma relação não linear entre a parcela da renda dos capitalistas, por um lado, e a limitação do ritmo da indústria, por outro. Esse relacionamento é ilustrado na Figura 1. No eixo horizontal a figura mostra a utilização da capacidade industrial, enquanto o eixo vertical situa a parcela capitalista da renda total da economia. As duas variáveis se movem juntas até certo ponto, a partir do qual o relacionamento se torna negativo.

Figura 1
Negócios e indústria

Essa relação teórica recebe uma confirmação empírica por Nitzan e Bichler (2009) quando analisaram os dados da economia dos Estados Unidos da América (EUA). Os autores verificaram que, no período entre 1933 e 2009, a renda dos capitalistas (lucro e juros) foi maximizada quando a taxa de desemprego se manteve dentro de um determinado patamar. No geral, os dados mostram que os ganhos dos capitalistas foram maximizados quando o nível de desemprego se situava entre 6% e 8%. Por outro lado, verificou-se o efeito negativo nos negócios quando a sabotagem industrial foi excessiva, mais especificamente no início da década de 1940, e quando a sabotagem foi insuficiente, durante a Segunda Guerra Mundial. Os níveis ótimos de sabotagem, em termos veblenianos, foram restaurados somente após a guerra, com crescentes limitações industriais, ajudando os capitalistas a aumentarem a sua parcela de renda.

Para Bichler e Nitzan (2010), essa dinâmica confere ao capitalismo um conflito endógeno que se desdobra a partir da busca pelo poder dos proprietários do capital industrial. A partir de certo ponto, tende a haver relação positiva entre o nível existente de poder capitalista e a força que precisa ser exercida para promover ainda mais esse poder. Assim, quanto maior a desigualdade de renda, mais difícil é torná-la mais desigual.

Embora os líderes capitalistas, por causa de sua posição social, não admitam essa necessidade, as evidências históricas, particularmente durante crises agudas, provam isso repetidas vezes. A contradição ocorre quando os governantes tentam aliviar o mal-estar geral sem alterar o seu poder redistributivo. Mas pelo motivo de seu poder depender da sabotagem que eles causam essa tentativa invariavelmente falha.

As dificuldades redistributivas tendem a surgir juntamente com a estagnação econômica, e isso não é apenas coincidência. Para redistribuir renda e riqueza a seu favor, os capitalistas dominantes precisam exercer seu poder sobre o resto da sociedade. Dessa forma, eles precisam limitar estrategicamente e em parte sabotar o bem-estar da população subjacente; e essa sabotagem estratégica tende a aparecer no nível agregado na forma de estagnação (Bichler; Nitzan, 2010).

Como observado por Veblen (1904; 1923), muitas das vantagens obtidas nos períodos de prosperidade são obtidas devido ao fato de os salários subirem tardiamente, após os preços dos bens de consumo. O aumento real dos salários vem apenas nos instantes finais dos ciclos de negócios. Tal sincronia não é mera coincidência, mas indicativo de que a manutenção dos lucros diferenciais será dificultada: “Increasing wages cut away the securest ground of that differential price advantage on which era of prosperity” (Veblen, 1904, p. 243).

Bichler e Nitzan (2010) explicam como é possível a manutenção dos processos de sabotagem e capitalização, e como os riscos de ruptura ocorrem devido à própria dinâmica, levando as economias a se envolverem em crises sistêmicas. Na maioria das vezes, os componentes desse relacionamento aninhado são reforçados mutuamente. A crença no ritual da capitalização não se preocupa com o passado ou o presente, mas com o futuro. As partículas elementares da capitalização - ganhos, euforia dos investidores, percepções de risco e taxa de retorno normal - representam não o que se sabe ter acontecido, mas o que se espera que aconteça. As próprias expectativas são inerentemente incertas e sempre em fluxo. Mas, sob suas mudanças, uma coisa permanece constante: a convicção de que o próprio processo de capitalização continuará a governar e organizar a humanidade, para sempre.

O que assegura a regularidade da capitalização como instrumento de poder no sistema capitalista é a confiança de que haverá obediência de todas as classes. As sociedades hierárquicas são caracterizadas por seus modos de poder. Todo modo de poder - seja escravo, feudal ou capitalista - repousa na confiança na obediência: a confiança dos governantes na obediência de seus súditos. Enquanto a desobediência de baixo para cima da população subjacente não prejudicar significativamente a confiança de cima para baixo daqueles que a governam - uma brecha que raramente acontece em uma escala suficientemente grande - o modo de poder permanece intacto (Bichler; Nitzan, 2010).

As instituições sociais garantem a obediência da classe operária e o compromisso com os objetivos pecuniários dos negócios. A obediência às regras do sistema capitalista é reforçada pelos hábitos de emulação pecuniária, que direcionam os objetivos sociais tanto de trabalhadores quanto de empresários no sentido da luta pela acumulação de riqueza. Em Teoria da classe ociosa, Veblen (1899) menciona a emulação pecuniária como mecanismo de demonstração de poder derivado da posse da propriedade, mostrando como certos hábitos de vida dos ricos são copiados pelas classes menos abastadas no intuito de conseguir certa honorabilidade. Já em The Engineers and the Price System, Veblen (1921) afirma que os técnicos e engenheiros se tornam cooptados pelos interesses dos capitalistas, influenciando-os a gerenciarem a produção em linha com os fins pecuniários, relegando a eficiência industrial em segundo plano.

Embora as instituições assegurem certa ordem ao processo de sabotagem e capitalização como mecanismo de poder, o afastamento de crises sistêmicas não é definitivo. Para Veblen (1904), se em épocas passadas, precedentes ao capitalismo, as crises se davam por questões materiais, atreladas à produtividade - surtos de pragas e doenças, invasões, enchentes etc. -, nos tempos modernos as tragédias econômicas raramente ocorrem como funções de fatores produtivos. A dominância dos hábitos de negócios sobre a indústria faz com que as depressões sejam fenômenos de caráter essencialmente psicológico.

A essência financeira do processo produtivo gera crises basicamente pelo desequilíbrio entre o valor nominal do capital de negócios contratado no processo de capitalização e os ganhos financeiros exigidos. Essa discordância entre os valores de retorno e capitalização se deve pela frustração da capacidade de “sabotar” a produção da indústria total. Geralmente, resultado de investimentos novos que contribuem para a competição dos negócios e, portanto, para a perda da capacidade do capital antigo em auferir os ganhos esperados.

Consideram-se depressões como efeitos psicológicos, pois, em termos materiais, nenhum empecilho técnico é colocado contra a produção, nem os desejos da sociedade são alterados ou diminuídos. Ou seja, os processos da máquina são mantidos de forma intacta. O que ocorre não é uma superprodução, mas, ao contrário, uma subprodução individual devido à incapacidade de vendas no mercado a preços previamente planejados para a geração de lucros anormais.

Esse cenário somente pode ser corrigido restaurando a normalidade da dinâmica dos negócios, a partir da coalizão entre os capitalistas, de modo a permitir a regulação da produção a um determinado nível que elimine o caráter competitivo das vendas e dos investimentos. Essa coalizão comercial pode ajustar a produção e os preços de vendas de modo a restaurar as expectativas de ganhos e, consequentemente, se readequar ao valor da capitalização. Entretanto, a retomada da normalidade raramente traz a produção para seu nível anterior.

O gerenciamento da produção pela ótica dos negócios implica que a utilização da capacidade produtiva sempre respeitará os limites impostos pelas práticas de busca de eficiência financeira. Esse hábito tem resultado, ao longo dos anos, em níveis máximos de utilização da capacidade instalada cada vez menores (Ver Gráfico 1).

Gráfico 1
Utilização da capacidade instalada: indústria total (EUA)

Conforme a abordagem vebleniana, a causa da evidência presente no Gráfico 1 deve-se às práticas constantes de coalizão realizadas entre os capitalistas. Esse movimento é frequentemente visto após fortes crises, quando ocorrem as liquidações de parcela do capital cujo valor de capitalização excede enormemente a capacidade real de entregar os ganhos esperados. Com isso, a restauração da capacidade de realização das práticas de sabotagem da produção industrial acompanha um movimento de concentração de riqueza. Assim, Veblen vincula sua teoria do ciclo econômico à teoria da crescente concentração de propriedade (Wray, 2007).

Nitzan (1998) evidencia isso a partir do aumento da concentração de riqueza por parte das quinhentas maiores corporações norte-americanas. O autor mostra que o crescimento dos ativos é maior nas maiores empresas em comparação com as demais firmas. O crescimento da concentração de riqueza faz com que a sabotagem seja realizada em situações cada vez melhores. Isso permite que a eficiência financeira possa ser alcançada com níveis de utilização da capacidade cada vez menores.

Tais perspectivas podem ser observadas a partir dos dados sobre a evolução do patrimônio líquido das classes econômicas. O Gráfico 2 apresenta o aumento consideravelmente maior dos ativos da parcela dos 0,1% mais ricos dos EUA em comparação com as corporações não financeiras. Verifica-se ainda que os avanços são ainda maiores nos períodos posteriores aos das crises financeiras.

Gráfico 2
Evolução do patrimônio líquido nas corporações em geral e no 0.1% mais ricos dos EUA (1989 = 100)

Esse movimento de concentração é acompanhado do crescimento das fusões e aquisições, conforme apresentado no Gráfico 3. Como mencionado na seção anterior, as fusões e aquisições atuam como mecanismo de concentração de poder ao aumentarem a capacidade de sabotar a produção aos proprietários do capital.

Gráfico 3
Fusões e aquisições na América do Norte

Dessa forma, a perspectiva teórica de Veblen revela os problemas atrelados aos hábitos de mensuração do nível de eficiência produtiva em termos monetários. Para o autor, raramente os modelos de administração da produção que buscassem o nível adequado para entregar retornos marginais elevados coincidiriam com o nível máximo de eficiência produtiva com base no produto por unidade de trabalho e capital. Isso porque, no primeiro caso, a mensuração em termos de dinheiro depende do que a sociedade pode absorver via mecanismos de mercado, enquanto o segundo plano é uma questão orientada pelo contexto material da indústria. Assim, as motivações envolvendo as decisões administrativas são pautadas, em grande parte, por fatores políticos relacionados às motivações predatórias, em detrimento do instinto para o trabalho eficaz.

6 Veblen e os pós-keynesianos

A princípio, a abordagem vebleniana sobre a restrição da produção e os ciclos econômicos vai ao encontro da Teoria Geral de Keynes (1985) e dos escritos de autores pós-keynesianos. Em especial, a análise de Minsky (2009) sobre a instabilidade financeira da economia capitalista. Wray (2007) afirma que tanto Veblen quanto Keynes preocuparam-se em explicar a economia capitalista como um fenômeno pecuniário/monetário, guiado pelos valores dos negócios, em detrimento da produtividade material. Os principais pontos de convergências são: 1) investimento e produção como função das expectativas futuras de retorno; 2) tendência à insuficiência de demanda agregada; e 3) desemprego de parte dos recursos produtivos como função do comportamento pecuniário dos capitalistas, ou, em termos keynesianos, equilíbrio sem pleno emprego.

Entretanto, Veblen fez importantes avanços no tratamento do impacto da concentração da riqueza e da propriedade, enquanto Keynes (1964) tratou o tema com certa indiferença. O autor institucionalista vincula a teoria do ciclo econômico a uma teoria sobre a crescente concentração de propriedade, mostrando como a busca pelo poder gera efeitos nocivos à distribuição da riqueza e, com isso, no aumento da capacidade de sabotagem.

Já em relação à Minsky (2010), a semelhança se refere à inferência de uma natureza inerentemente instável do sistema econômico capitalista. O argumento dos dois autores é de que as crises de produção surgem através de forças endógenas, derivadas dos hábitos de administração pautados essencialmente por práticas financeiras especulativas. Para o autor pós-keynesiano, o processo de capitalização prospectiva torna a fragilidade um fenômeno endógeno. O que ocorre é que “os compromissos de pagamento em dinheiro que são aceitáveis mudam na medida em que o desempenho da economia afeta os pontos de vista sobre a forma como a economia irá se comportar” (Minsky, 2010, p. 292).

As expectativas futuras de lucro, induzidas pelos bons tempos e por quedas nas taxas de juros de curto prazo, impulsionam os capitalistas a incorrerem em estruturas financeiras especulativas. Nesse caso, aumentos dos financiamentos de investimentos mais arriscados, e com prazos longos, a partir de dívidas de curto prazo, alimentados pela esperança de que a situação corrente de elevada liquidez e baixa taxa de juros perdurará por muito tempo, torna a estrutura econômica frágil frente às possíveis oscilações das taxas de juros de curto prazo e na variação das expectativas quanto aos retornos esperados dos investimentos.

Outro ponto interessante a ser discutido dentro da abordagem vebleniana e suas ligações com os pós-keynesianos é sobre a habilitação das inovações financeiras pelas finanças. Como vimos, Veblen argumentava sobre a restrição das inovações produtivas por parte dos hábitos com base no instinto predatório. Entretanto, conforme evidenciado por Minsky (2010), as inovações financeiras parecem enfrentar menos restrições, visto que seu objetivo é justamente facilitar os ganhos diferenciais a partir da capitalização do capital produtivo no mercado financeiro.

Esse tópico não chegou a ser desenvolvido dentro da visão vebleniana, mas é facilmente passível de conciliação. Nas palavras de Minsky (2010, p. 276):

Os lucros estão disponíveis para os que inovam estruturas e instituições financeiras, assim como para aqueles que inovam produtos, técnicas de produção e marketing. Muitas das grandes fortunas carreiam para os que introduzem inovações financeiras, sejam eles tomadores ou fornecedores de empréstimos. Bancos, outras instituições financeiras, firmas e famílias estão sempre buscando novas formas de financiar atividades. Inovações financeiras bem-sucedidas são recompensadas com fortunas e exaltadas por imitadores. Quando uma inovação é bem-sucedida, ela pode se difundir rapidamente, uma vez que as inovações financeiras são quase sempre a aplicação de alguma ideia e não existe patente que impeça os imitadores.

Da mesma forma que no esquema vebleniano, o sistema produtivo na economia minskiana seria afetado por esquemas especulativos que os gestores constroem em busca de aumentar cada vez mais suas possibilidades de ganhos. Aqui, há o importante papel das inovações financeiras, que contribui para o financiamento de níveis cada vez mais altos de atividade.

Para Minsky (2010), as inovações financeiras são um importante atributo da economia capitalista, uma parte significativa da evolução financeira da economia se concentra no desenvolvimento de instrumentos e mercados que tornam possível o financiamento de níveis mais altos de atividade. Em uma releitura com base no prisma vebleniano, as inovações financeiras podem ser incorporadas na análise como instrumento de suma relevância para apoiar o processo de capitalização prospectiva, ampliando a capacidade de auferir ganhos financeiros ao longo do tempo e, com isso, alavancando o poder que o capital material concede à classe dos capitalistas.

Apesar de convergentes em relação à instabilidade endógena do processo de capitalização prospectiva, há algumas especificidades na abordagem de Veblen que avançam em relação às ideias contidas em Minsky (2010). Primeiramente, temos que, para este último, o processo de alavancagem permitida pelas inovações persiste enquanto as condições de liquidez e bom funcionamento dos mercados permanecerem. Tais condições, por sua vez, estão asseguradas sempre que as perspectivas de retorno estiverem em um cenário positivo. “Inovações financeiras resultam na existência de proprietários de ativos e tomadores de empréstimo em potencial que dependem do funcionamento normal e contínuo de algum novo mercado financeiro ou instituição” (Minsky, 2010, p. 299).

Já a análise de Veblen nos permite incluir o caráter político na explicação das crises financeiras, indo além das questões envolvendo erros expectacionais. Isso é verificado a partir do esquema em que as práticas de gerenciamento da produção, de capitalização, a dinâmica macroeconômica e o funcionamento das instituições de política econômica são entrelaçados com o objetivo de busca desenfreada de poder por parte das organizações e dos capitalistas.

Com base nas ideias de Veblen, podemos interpretar que os ajustes recessivos, ou crises financeiras, podem ser desencadeados pelo crescimento da concorrência. A partir do boom de capitalização e dos investimentos resultantes, problemas passam a surgir no controle da produção em nível que garanta o ganho de lucros diferenciais para os capitalistas individuais. Nesse momento, há certa dificuldade na manutenção do processo de capitalização prospectiva, de modo a desencadear a absorção de uma parcela dos capitais por outros. Somente com o avanço da concentração da propriedade industrial é que se permite a retomada dos hábitos de sabotagem, dos lucros diferenciais e da normalização do processo de capitalização.

Outro cenário é quando a capacidade instalada passa a ser ocupada quase que plenamente, e a participação dos lucros começa a cair, requerendo aumento dos preços para readequar a parcela da renda dos capitalistas na produção total. A retomada do controle da produção pode ocorrer via instituição da política monetária, especificamente no que tange ao papel de controle dos preços, quando aumentos de juros fazem com que ajustes produtivos se tornem necessários. Isso implicaria queda dos investimentos, queda da competição potencial e, por sua vez, maior facilidade de realização dos hábitos de sabotagem.

Ao contrário do senso comum, os períodos recessivos, conforme Veblen (1904), não são necessariamente derivados de fases de superprodução. O aumento da utilização da capacidade faz com que os capitalistas percam o controle da produção para atingir a eficiência financeira. As tentativas destes de retomarem as rédeas, via aumento de preços, é um gatilho para o chamado da sabotagem por meio da política econômica de aumento de juros e ajustes fiscais. Isso ocorre pela incapacidade dos capitalistas de conseguirem conciliar a maximização, no sentido vebleniano, da eficiência financeira com a maximização da eficiência material, no âmbito puro da produção. Desse modo, o nível de utilização industrial que garante o primeiro caso está sempre aquém do necessário para se alcançar o segundo. Nesse sentido, as recessões contratadas pela instituição da sabotagem são acionadas assim que se ultrapassa o nível de produção desejado pela lógica financeira, mas ocorrendo antes mesmo de a produção agregada da economia chegar ao seu máximo. Nas palavras do autor:

In times of depression, or "hard times," there is, under the modern industrial system at least, no overproduction in the sense of a production so large as to overtax the working capacity of the industrial appliances and processes employed, nor so large, even, as to overtax the normal powers of the force of workmen or require them to work overtime and holidays (Veblen, 1904, p. 247).

Não se quer dizer que os capitalistas desejam e agem deliberadamente para causar crises e recessões. O que ocorre é que todo o processo, mencionado até então, se desenvolve a partir do direcionamento dado pela natureza predatória das próprias instituições, as quais guiam o cotidiano e as ações econômicas de toda a sociedade capitalista. Nesse sentido, tem-se que as recessões não são resultadas da incapacidade da sociedade de absorver níveis elevados de produto, mas sim da incapacidade de se obterem os lucros diferenciais que validam as demandas do processo prospectivo de capitalização, cujo mecanismo, por sua vez, tem sido o cerne do poder nos tempos modernos.

Por fim, argumenta-se que a configuração institucional, pautada pelo interesse dos negócios e do instinto predatório, restringe constantemente os níveis de produção e de crescimento da produtividade, deixando a sociedade em condições de bem-estar cada vez mais aquém do seu potencial. Se, de um lado, a mentalidade predatória ligada aos hábitos dos negócios é, ao mesmo tempo, responsável pela restrição da produção e das instabilidades do processo de capitalização, por outro, essa mesma inclinação também contamina as instituições sociais para que as resoluções das crises sistêmicas ocorram na direção de resguardar as condições para a sabotagem da eficiência material da indústria, como a maior concentração de riqueza e a adequação da produção no nível da maximização da eficiência financeira para o ganho de lucros diferenciais.

7 Considerações finais

Este estudo buscou explorar as contribuições de Veblen para a análise sobre os fatores endógenos presentes nas instituições e nos hábitos de administração financeira da produção industrial, que estão por trás das crises e da restrição ao crescimento econômico. Todo o esquema vebleniano se desdobra a partir da teoria dos instintos, em especial no que tange à dicotomia entre as inclinações predatórias e para o trabalho eficaz. Esse conflito originário da natureza humana se transforma a partir do contato com a evolução material proveniente da revolução industrial, em uma disputa entre a lógica dos negócios e a da eficiência produtiva.

A revolução industrial mudou a forma de comando e apropriação da produção da sociedade. Aqui, o poder deixa de seguir a regra do tradicionalismo feudal e passa a ser conquistado pelo acúmulo de capital e pela geração de renda, ambos medidos em termos monetários. A validação do poder somente ocorre na ocasião da existência de posse de capitais que geram ao detentor rendas diferenciais em relação à média per capita da sociedade. Assim, quanto maior os lucros e rendas em relação à média nacional maior é o poder concedido ao indivíduo.

Com isso, os hábitos de obtenção de riqueza a partir da exploração da produção é o meio básico de alcançar o comando da sociedade. Consequentemente, tem-se que todo o tecido produtivo, como os investimentos destinados a criar capacidades industriais, são programados unicamente para a acumulação pecuniária. Se as questões que ditam a dinâmica técnica da indústria são direcionadas pelo impulso do instinto para o trabalho eficaz, os negócios, por sua vez, são uma questão do instinto predatório.

No contexto de dominância da mentalidade predatória na orientação dos hábitos e instituições da sociedade capitalista, a regra geral tem sido a prevalência de práticas de gerenciamento da produção que visam à “sabotagem” da eficiência material em apoio à maximização financeira. Aqui, a quantidade produzida se torna função dos preços máximos que se podem conseguir para obter a maior lucratividade possível. Conforme Veblen (1904, 1921) raramente o nível de produção que traria os retornos máximos para os capitalistas coincide com a utilização máxima da eficiência medida em termos materiais.

É a partir dessa lógica que tanto o fenômeno do crescimento econômico quanto o das crises financeiras se desdobram na perspectiva vebleniana. Sobre o primeiro, tem-se que os avanços materiais, em termos de crescimento da produtividade e da utilização da capacidade industrial, somente ocorrerão à medida que forem habilitados pelas finanças. A ótica puramente financeira do capital implica que o interesse pelo processo produtivo se concentra unicamente na quantidade de dinheiro que se pode retirar da estrutura industrial.

Dessa forma, as práticas de capitalização prospectiva entram em cena como maneira de potencializar esse processo. Seu método é financiar atividades que permitam ganhos monetários diferenciais, trazendo para o presente os lucros futuros esperados. Quanto maior a expectativa maior é, por sua vez, o valor capitalizado do capital. Para isso, a sabotagem é fundamental, pois raramente o nível de produção que garante a maximização do ganho financeiro coincide com o nível máximo de capacidade física produtiva.

Na esteira desse processo, a instabilidade e as crises financeiras ocorrem como fatores endógenos ao próprio sistema. Tal movimento emerge com as frustrações de expectativas de ganhos, induzindo a atualização dos valores capitalizados. Entretanto, para Veblen (1904), a causa fundamental da instabilidade vai além do mero erro de cálculo expectacional. Ela germina das dificuldades de manutenção, ou expansão, das práticas de sabotagem, que, por sua vez, são responsáveis pela garantia dos lucros diferenciais e da acumulação de poder na economia capitalista.

Por fim, tem-se que a dominância da lógica financeira no controle da estrutura produtiva orienta a sociedade para um nível de produção aquém do que poderia em termos materiais, distanciando-se também do nível bem-estar potencial. Conforme a análise vebleniana, as desigualdades econômica e social, junto com a ociosidade produtiva, são imperativos fundamentais para a sua sustentação do processo produtivo no sistema capitalista. Além disso, a mentalidade predatória presente nos hábitos que regulam esta dinâmica contamina as instituições que comandam a política econômica. Como resultado, tem-se que a tentativa de restauração da ordem financeira do sistema, após os períodos de instabilidade, implica, cada vez mais, o aprofundamento e a intensificação da sabotagem industrial e concentração de poder.

Agradecimentos

Agradeço aos pareceristas e a equipe editorial da revista Nova Economia.

Referências

  • BICHLER, S.; NITZAN, J. Systemic fear, modern finance and the future of capitalism. Toronto, On: The Bichler and Nitzan Archives, 2010.
  • CAVALIERI, M. A. R. O surgimento do institucionalismo Norte-Americano: ensaio sobre o pensamento e o tempo de Thorstein Veblen. Tese (Doutorado) - Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. 2009.
  • EDGELL, S. Veblen in perspective: His life and thought. Abingdon:Routledge, 2015.
  • GAGNON, M. Capital, power and knowledge according to Thorstein Veblen: Reinterpreting the knowledge-based economy. Journal of Economic Issues, v. 41, n. 2, p. 593-600, 2007.
  • GANLEY, W. T. The theory of business enterprise and Veblen’s neglected theory of corporation finance. Journal of Economic Issues, v. 38, n. 2, p. 397-403, 2004.
  • JAMES, W. The Principles of Psychology, v. 2, London: Macmillan, 1890.
  • KEYNES, J. M. The general theory of employment, interest and money. New York: Harcourt Brace, 1964.
  • MCDOUGALL, W. An Introduction to Social Psychology, London: Methuen, 1908.
  • MINSKY, H. P. Estabilizando uma economia instável. São Paulo: Novo Século, 2010.
  • NITZAN, J. Differential accumulation: Towards a new political economy of capital. Review of International Political Economy, v. 5, n. 2, p. 169-216, 1998.
  • NITZAN, J.; BICHLER, S. Capital como poder: um estudo de ordem e creorder. Abingdon:Routledge, 2009.
  • STEINDL, J. Small and Big Business. Oxford; New York: Basil Blackwell, 1952.
  • VEBLEN, T. Why is economics not an evolutionary science? The Quarterly Journal of Economics, v. 12, n. 4, p. 373-397, 1898a.
  • VEBLEN, T. The instinct of workmanship and the irksomeness of labor. American Journal of Sociology, v. 4, n. 2, p. 187-201, 1898b.
  • VEBLEN, T. A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. São Paulo: Abril Cultural, 1987 [1899].
  • VEBLEN, T. The Theory of the Business Enterprise. New Brunswick, N. J.: Transaction Books, 1904.
  • VEBLEN, T. The instinct of workmanship and the state of the industrial arts. New York:BW Huebsch Inc., 1914.
  • VEBLEN, T. The Engineers and the Price System. New York: BW Huebsch, 1921.
  • VEBLEN, T. Absentee Ownership: Business Enterprise in Recent Times-The Case of America. London: George Allen & Unwin, 1923.
  • WRAY, L. R. Veblen’s theory of business enterprise and Keynes’s monetary theory of production. Journal of Economic Issues, v. 41, n. 2, p. 617-624, 2007.
  • Códigos JEL:
    B15
  • JEL Codes:
    B15
  • 1
    Apesar de as reflexões deste artigo se darem com base na ideia de uma oposição entre os instintos predatório e do trabalho eficaz, vale destacar que Veblen nem sempre tratou essa relação como conflituosa. O autor institucionalista analisou as diferentes inclinações instintivas ora como unidade, ora como contradição. Em The Instinct of Workmanship and the Irksomeness of Labor (1898b), e em algumas passagens de Teoria da classe ociosa (1899), chamou atenção para as raízes do instinto predatório, o qual emergiu com base no sucesso do próprio instinto do trabalho eficaz. Porém, em outros trabalhos, o autor deu mais evidência à relação de oposição entre as duas inclinações. É o caso de The Engineers and the Price System (1921) e The Theory of the Business Enterprise (1904).
  • 2
    Veblen se referia à classe dos grandes empresários como proprietários absenteístas, os quais eram caracterizados pela prática de possuir bens e fatores de produção para fins puramente pecuniários, agindo, na maioria das vezes, em detrimento da razão produtiva. Entretanto, com o avanço dos mercados de capitais, hoje em dia o proprietário absenteísta incluiria qualquer pessoa que possui participação acionária nas empresas, inclusive os trabalhadores. Justamente por isso deve-se fazer ressalvas quanto ao uso desse termo para analisar o sistema econômico atual.
  • 3
    Nesse contexto, a ênfase de Veblen nos instintos e hábitos para explicar a ação humana foi herdada de William James (1890) e William McDougall (1908), que buscaram conectar as formas habituais de agir e pensar, as quais são construídas socialmente, aos impulsos derivados da natureza humana.
  • 4
    “The ends of life, then, the purposes to be achieved, are assigned by man’s instinctive proclivities; but the ways and means of accomplishing those things which the instinctive proclivities so make worth while are a matter of intelligence. It is a distinctive mark of mankind that the working-out of the instinctive proclivities of the race is guided by intelligence to a degree not approached by the other animals. But the dependence of the race on its endowment of instincts is no less absolute for this intervention of intelligence; since it is only by the prompting of instinct that reflection and deliberation come to be so employed, and since instinct also governs the scope and method of intelligence in all this employment of it. Men take thought, but the human spirit, that is to say the racial endowment of instinctive proclivities, decides what they shall take thought of, and how and to what effect” (Veblen, 1914, p. 5-6).
  • 5
    Nas diversas obras de Veblen (1899; 1898b; 1914; 1921), o caráter da emulação gera algumas dúvidas no que tange à sua categorização. Em alguns momentos esse caráter conceituado como uma propensão instintiva, enquanto em outros é definido com o status de instituição. Essa distinção não é encontrada apenas entre os diferentes trabalhos, de modo que poderia ser justificada como uma mudança de expressão do próprio autor, mas verificada também em momentos distintos dentro das próprias obras. Assim, o que se percebe é que a emulação abarca um duplo caráter. Configura-se como instinto uma vez que exprime o desejo e objetivo de conquistar aceitação e, por vezes, admiração dos membros do grupo. É uma propensão inata, presente em todos os agentes, notada em todas as culturas e etapas do desenvolvimento humano. Já a sua qualidade de instituição deve-se ao hábito que se estabelece entre os indivíduos de realizar comparações e agir de modo competitivo entre si.
  • 6
    Aqui,vale destacar a proximidade do pensamento de Veblen com Steindl (1952), que via o excesso de capacidade como fator estratégico para as empresas de setores oligopolísticos.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2025

Histórico

  • Recebido
    25 Mar 2024
  • Aceito
    08 Jan 2025
location_on
Nova Economia FACE-UFMG, Av. Antônio Carlos, 6627, Belo Horizonte, MG, 31270-901, Tel.: +55 31 3409 7070, Fax: +55 31 3409 7062 - Belo Horizonte - MG - Brazil
E-mail: ne@face.ufmg.br
rss_feed Stay informed of issues for this journal through your RSS reader
Accessibility / Report Error